Ef 6:10 -
20
Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra
as ciladas do Diabo; porque a nossa luta não é contra o
sangue e a carne e sim, contra os principados e potestades, contra os
dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais
do mal, nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura de
Deus, para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido
tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois, firmes, cingindo-vos
com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai
os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando
sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos
inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação
e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda
oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito,
e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por
todos os santos, e também por mim; para que me seja dada, no abrir
da minha boca, a palavra para com intrepidez fazer conhecido o mistério
do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que em Cristo
eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo.
Quando estourou
a Segunda Guerra Mundial, o conhecido John Stott era bem jovem, com idade
de alistar-se no Exército. Contudo, ele se recusou a entrar no
Exército Britânico e a participar da guerra. O pai de Stott,
um médico que havia se alistado para combater ao lado dos aliados,
ficou extremamente revoltado com o filho e cortou as relações
com ele. Só depois que Stott tornou-se pastor conhecido, e começou
a pregar na capela de All Souls, na Inglaterra, é que um dia, finalmente,
seu pai, comovido, o procurou. Seu pai não aceitava que, naquele
momento de crise para o país, as convicções pacifistas
de Stott o impedissem de lutar pela sua Pátria.
Pacifismo
ou guerra espiritual? - Sem entrar no mérito da questão
do pacifismo, queremos apenas usar essa ilustração para
dizer que não há lugar para pacifistas na guerra espiritual
em que a Igreja está envolvida. A Bíblia diz que estamos
num combate, estamos no meio de uma escaramuça. Não é
de estranhar que no Novo Testamento a Igreja quase sempre é descrita
com uma linguagem oriunda do campo militar. Muita gente hoje fala em Igreja,
inclusive há essa idéia muito popular de que a Igreja é
um grande hospital onde as pessoas vêm para que sejam curadas. Não
queremos descartar esse lado, cremos que o Novo Testamento nos dá
base para afirmar que há espaço entre o povo de Deus para
a cura interior. Aliás, muita gente vê a Igreja desta maneira,
como um grande sanatório, onde nossas esquizofrenias espirituais
são tratadas pelo pastor ou por uma equipe.
O problema
com essa visão é que ela não leva em consideração
que, no Novo Testamento, a Igreja é vista como um exército
que marcha, um exército que está em plena campanha, um exército
que está em batalha. Há muitos que estão na Igreja
há tantos anos esperando para que sejam curados de suas feridas.
Talvez o que esteja faltando seja uma palavra como: “Irmão,
toma a tua armadura e vai para o campo de combate”. Há irmãos
que são doentes profissionais na Igreja. Estão ali e vão
ficar ali a vida toda. Na realidade, o quadro de Igreja que vemos no Novo
Testamento é o de uma Igreja militante. Não é por
acaso que os nossos teólogos entendem a Igreja como sendo a Igreja
militante e a Igreja triunfante. Militante porque está em luta,
está em combate, está em conflito, contra as hostes do mal,
contra o pecado, e contra o mundo.
Entendendo
o contexto de Efésios 6 - O texto lido é o mais detalhado
do Novo Testamento sobre a militância da Igreja, sobre o seu conflito
com as hostes das trevas. Antes de analisar esse texto propriamente dito,
para aprender dele o conceito do apóstolo Paulo quanto ao conflito
cristão e à guerra em que estamos envolvidos, é importante
entender a situação em que o apóstolo escreveu estas
palavras. Seguindo regras simples de interpretação, observamos
que quando vamos pregar sobre um texto, ou quando vamos estudar uma passagem,
é sempre bom levar em conta o quadro maior. E aqui, no caso desse
texto em particular, isso é extremamente importante. Essa passagem
tem sido mal usada por pessoas que defendem as mais loucas idéias
que você possa imaginar na área de conflito ou batalha espiritual.
Contudo, quando nos colocamos dentro do contexto e da perspectiva da carta,
temos uma visão privilegiada do ponto de vista do autor.
Não
é mistério para ninguém que quando Paulo escreveu
a carta aos Efésios estava preso em Roma, mas, mesmo assim, desejava
confortar os que sabiam da sua prisão. Não sabemos exatamente
todos os detalhes. A carta aos Efésios é uma das que mais
se revestem de mistérios, especialmente no que respeita ao propósito
de Paulo ao escrevê-la. Pessoalmente, cremos que ele a escreveu
para explicar à Igreja de Éfeso, e talvez a outras Igrejas
da região, o fato de que Deus havia permitido que ele, mesmo sendo
o apóstolo designado para pregar aos gentios, tivesse sido lançado
na prisão de Roma, ficando impedido, assim, de realizar o seu ministério.
É isso que ele diz no capítulo 3, no verso 13: “Portanto,
vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações
por vós, pois nisso está a vossa glória” O
propósito de Paulo era mostrar que aquilo que para os efésios,
e possivelmente para as Igrejas daquela região, era motivo de dúvida,
questionamento ou perturbação, na realidade representava
a glória deles. E ele faz isso expondo a doutrina da Igreja, mostrando
o propósito de Deus para a Igreja.
No capítulo
primeiro, mostra como Deus, em Cristo, reuniu todas as coisas, apresentando
a Igreja como representação disso; ele mostra como, em Cristo
Jesus, a Igreja foi abençoada com toda a sorte de bênção
espiritual e foi selada pelo Espírito Santo (vs. 3). No segundo
capítulo, ele mostra que Deus fez isso em termos práticos,
chamando-nos pela graça quando estávamos mortos em ofensas
e pecados. Depois, ainda no segundo capítulo, ele mostra a união
de judeus e gentios formando um único povo, a Igreja, desfazendo
a diferença ou barreira entre judeus e gentios. Deus não
tem dois povos. Deus tem um único povo: a Igreja, que é
composta de judeus e gentios convertidos. No terceiro capítulo,
Paulo fala da sua função, como apóstolo, no propósito
eterno de Deus de revelar o mistério de Cristo que outrora havia
estado oculto, mas que tinha sido revelado através dos apóstolos
e da pregação da Palavra, na vinda do Senhor Jesus. Paulo
mostra que estava sofrendo exatamente por causa disso, e que o sofrimento
dele fazia parte desse eterno propósito de Deus; e nisso estava
a glória dos efésios e de tantos quantos lessem a carta
que, possivelmente, era uma carta circular. E, a partir daí, ele
fala, no quarto capítulo, sobre a unidade da fé através
do ministério dos apóstolos, dos profetas, dos evangelistas
e dos pastores e mestres. Ainda no quarto capítulo, ele começa
a traçar as implicações práticas de tudo que
ele havia feito, mostrando, a partir da metade do capítulo, como
os efésios deveriam andar, à luz desse contexto. Então
ele trata da santificação, uma vida pura diante de Deus.
No quinto capítulo, trabalhando na mesma direção,
Paulo trata da vida conjugal. No sexto capítulo, ele fala sobre
a criação de filhos, sobre a vida na sociedade, e, por fim,
conclui exortando a Igreja a se preparar contra as astutas ciladas do
inimigo. Os efésios ouviram tantas coisas maravilhosas a respeito
do que eles eram em Cristo Jesus, do que Deus providenciou para eles,
do plano eterno; e certamente devem ter ficado tão cheios de alegria
e de gozo que Paulo sentiu a necessidade de dizer: “irmãos,
nós ainda não chegamos lá, vocês vão
encontrar oposição no mundo para viver como Igreja de Deus,
para experimentar em termos práticos, definidos, completos tudo
isso que Deus tem para vocês”. Ele disse então: “irmãos,
vocês vão encontrar oposição, não de
homens de carne e sangue como nós, mas dos principados e potestades
que estão nos lugares celestiais que querem nos destruir. Portanto,
vocês têm que tomar toda a armadura de Deus para poder resistir
às tentativas dessas forças que hão de tentar impedi-los
na carreira cristã”. Então, quando olhamos para o
capítulo 6 de Efésios, particularmente os versos 10 a 20,
com a perspectiva da carta como um todo, à luz da eclesiologia
de Paulo nessa Carta, algumas lições se tornam evidentes
para nós no que respeita à questão da batalha espiritual.
Em primeiro lugar, devemos ver que o propósito de Paulo no capítulo
seis é ensinar a Igreja a resistir. Esse é o seu ponto principal.
Não é difícil provar isso. Se vocês derem uma
olhadinha no texto que lemos, a ordem principal é: “ficai
firmes”. O imperativo aparece três vezes, no versos 1, 13
e 14 “Ficai firmes” é a exortação de
Paulo.
Combate ou
resistência? - Essa passagem tem sido descrita por alguns como sendo
uma convocação ao combate. Contudo, ela seria melhor descrita
como uma exortação a que a Igreja resista. Outra coisa que
a gente observa é que o soldado cristão, aqui descrito,
está numa posição de defesa. O soldado que é
descrito aqui, a partir inclusive da descrição das armas
que lhe são dadas, não está partindo para o combate,
para conquistar novos campos ou para assaltar o inimigo, ou para derrubar
uma trincheira. Na realidade, ele já conquistou, já venceu,
já colocou o pé em território inimigo. O que ele
tem que fazer é resistir firme, esse é o peso da passagem
que se coaduna com tudo que nós vimos até agora. A Igreja,
na Carta aos Efésios, já é vitoriosa, já está
assentada com Cristo nos lugares celestiais, como Igreja invencível
e imbatível. Cristo já venceu todas as batalhas por ela.
Paulo começa a tratar dessa batalha (Ef 6:10) dizendo: “Sede
fortalecidos no Senhor e na força do Seu poder”. Essa expressão
aparece no capítulo primeiro, quando Paulo ora, no verso 18, para
que fossem iluminados os olhos do entendimento daquela Igreja e o coração
para que soubessem qual era a esperança da vocação
deles, qual era a riqueza da glória da herança dos santos
e qual era a suprema grandeza do seu poder para com os que crêem,
segundo a eficácia da força do Seu poder.
Assim, Paulo
exorta a Igreja a que se apodere da vitória de Cristo, daquele
poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos e O colocou à direita
de Deus nos lugares celestiais. Portanto, o guerreiro que está
descrito aqui já é vencedor, já conquistou, já
colocou o pé no solo inimigo. O que Paulo manda é que esse
guerreiro resista às tentativas do inimigo de recuperar aquilo
que ele já perdeu e que foi tomado pelo nosso Capitão, o
Senhor Jesus. Estamos destacando esse ponto porque uma das ênfases
do movimento de “Batalha Espiritual”, que vamos considerar
mais detalhadamente, é que a Igreja deve entrar em conflito direto
com os principados e potestades. Eles mudaram as coisas. Para eles, não
somos nós que somos caçados pelo Diabo; antes, nós
é que temos que sair caçando o Diabo. Mas vejam que o que
Paulo está dizendo nesse texto não é isso. Ele está
dizendo é que nós já somos vencedores. Mas ainda
assim, o movimento de “Batalha Espiritual” insiste em que
os crentes saiam caçando o Diabo para tomar o território
dele, para derrubá-lo, para conquistá-lo e implantar a doutrina
de Cristo nesses locais todos. Como se tudo já não fosse
de nosso Senhor e como se o Diabo já não fosse um inimigo
derrotado. Voltaremos a esse ponto porque ele requer mais detalhes. Mas
esse é o ponto principal que gostaríamos de enfatizar e
que fica claro quando se vê essa passagem à luz do seu contexto.
Paulo não está mandando a Igreja partir para tomar qualquer
ofensiva contra demônios. Pelo contrário, a Igreja, segundo
ele, já é vencedora. Sua recomendação, portanto,
é para que ela resista aos ataques que lhe são feitos. Esse
é um ponto de grande importância que devemos guardar em mente.
Origens do
movimento - Agora, a grande pergunta, naturalmente, é: Como podemos
resistir? Vamos considerar, em primeiro lugar, a resposta do movimento
de “Batalha Espiritual”, como é conhecido em nossos
dias. Vamos dizer, brevemente, o que eles pensam sobre o assunto, depois
ofereceremos uma análise de tudo e, finalmente, apresentaremos
uma alternativa bíblica quanto ao tema. Vamos começar, então,
entendendo o que é esse movimento de “Batalha Espiritual”
e a que ele se propõe. Em nossas pesquisas, não encontramos,
com muita segurança, a origem do movimento, a não ser uma
informação de um dos seus defensores que diz que o movimento
teve as suas origens em um missionário americano chamado J.O. Fraser,
na década de 30. Fraser foi missionário na China, pela “Missão
para o Interior da China”, fundada por Hudson Taylor. Seu trabalho
se restringia a uma tribo no interior da China envolvida com ocultismo,
práticas de feitiçaria, e magia negra. Fraser, no início
do seu ministério, fracassou redondamente. Ele não conseguia
libertar aqueles chineses incultos e bárbaros das suas superstições
mágicas e das suas tradições de feitiçaria
e ocultismo. Notava que os seus convertidos não conseguiam realmente
se libertar da influência dos espíritos dos demônios.
Então ele começou a tentar na forma empírica, isto
é, na base da tentativa de erro e acerto, achar uma maneira de
combater esses demônios. Ele entendia que a sua luta não
era mais com os convertidos; então, queria ir direto à causa.
Assim, achou que seu negócio era com os demônios, e começou
a desenvolver uma técnica, uma estratégia para anular, para
eliminar, ou para impedir a atuação dos demônios nos
convertidos; impedir a ação dos demônios que emperravam
o trabalho da Igreja. Depois de várias tentativas, Fraser deixou
de lado as Escrituras e desenvolveu um método na base do pragmatismo,
ou seja: se funciona, está certo. Foi assim que ele entendeu ter
encontrado o caminho do sucesso, em termos de invadir os territórios
dos demônios e amarrá-los.
Fraser era
um missionário, uma pessoa desconhecida, portanto as técnicas
e o trabalho dele ficaram desapercebidos até que a irmã
dele publicou, trouxe à luz, as cartas que ele havia escrito, e
as anotações dele sobre o assunto. A partir daí,
a coisa passou para o domínio público. Isso teria acontecido
no começo da década de 30.
Divulgadores
atuais - Um nome bem mais conhecido, Frank Perreti, popularizou essas
idéias no mundo todo. Peretti, com dois romances entitulados: “Este
Mundo Tenebroso”, descreve a luta espiritual de uma pequena comunidade
de uma cidade dos Estados Unidos para impedir que os espíritos
malignos daquela região se apoderassem da cidade. Ele narra, então,
de forma muito bem escrita, uma estória que se passa em um local
fictício e com personagens fictícios. Esse livro foi um
best seller nos Estados Unidos e já foi traduzido para quase todas
as línguas ocidentais. Peter Wagner, o maior nome do movimento
de “Batalha Espiritual”, agradece publicamente a Peretti dizendo
que nós devemos mais a Peretti do que a qualquer outro autor a
difusão da idéia do movimento de “Batalha Espiritual”
no mundo todo.
Peter Wagner
foi professor e missionário na América Latina durante alguns
anos. Então, ele voltou aos Estados Unidos para ensinar no Centro
de Missões no Seminário Fuller e voltou com convicções
pentecostais. Ele estava convencido das coisas que viu na América
Latina. A princípio ele era bastante conservador e contra todas
as manifestações pentecostais e carismáticas. Mas
ele viu alguma coisa na América Latina que virou a cabeça
dele. Assim, ao voltar para o Fuller, estava absolutamente comprometido
com essas manifestações. Depois de algum tempo, tomou o
lugar de Donald McGavran, que é o fundador do movimento de “Crescimento
de Igreja”. Peter Wagner tomou o lugar de McGavran, que era mais
moderado, e difundiu não somente a idéia do movimento de
“Crescimento de Igreja”, mas associou a idéia de fazer
a Igreja crescer com sinais e prodígios. Ou seja, ele acha que
no mundo de hoje não tem jeito de fazer a Igreja crescer se não
houver sinais e prodígios. Nós vivemos numa época
pós-moderna onde ninguém valoriza o conceito de certo ou
errado. O que vale hoje é a experiência, o que você
sente; e, portanto, a única coisa que a Igreja tem para oferecer
como principal chamariz, diz Wagner, é exatamente a produção
de sinais e prodígios.
Riso, urro
e vômito “santos” - O Seminário de Fuller comprou
a idéia e abriu um curso chamado: “Crescimento de Igreja,
Sinais e Prodígios” onde quem dava aula eram Peter Wagner
e John Wimber, o fundador do movimento “A Videira”, uma das
denominações carismáticas que mais cresce nos Estados
Unidos hoje e de onde saiu a Igreja da “Bênção
de Toronto”. Já ouviu falar da “bênção
de Toronto”? A “bênção de Toronto”
é a “gargalhada santa”, o “riso santo”.
Quando a Igreja de Toronto começou com a “gargalhada santa”,
John Wimber foi lá, não sabemos se Peter Wagner foi também,
mas eles trabalhavam juntos. John Wimber foi lá e disse: “Isso
é uma obra do Espírito Santo”. Ele deu todo apoio
à “bênção de Toronto”. No Natal
do ano passado, acrescentou-se alguma coisa ao “riso santo”
- o “urro santo”. Aqueles irmãos começaram não
somente a rir, mas a berrar, a urrar, a grunhir e a latir. A justificativa
dada, no caso dos que urravam como leão, é que o berro é
o urro de indignação de Deus contra o pecado da Igreja,
porque no livro de Amós, Deus se apresenta como um leão
e, portanto, quando o Espírito vem sobre alguém ele urra
em indignação contra o pecado da Igreja. Tudo bem! Mas e
o cachorro? A coisa ficou tão feia que John Wimber voltou lá,
disse que o movimento não era mais do Espírito Santo e cortou
a Igreja de Toronto da comunhão. Ele fez isso no Natal do ano passado.
Recentemente, o Dr. Michael Horton, que esteve aqui no Simpósio
dos Puritanos em Águas de Lindóia, disse que o último
desdobramento do movimento é o “vômito santo”.
De acordo com o “vômito santo”, quando a pessoa está
vomitando no Espírito quer dizer que ela está expelindo,
na linguagem deles, todos aqueles espíritos malignos, todos aqueles
pecados e coisas que estavam neles.
Queremos fazer
apenas um parêntese para dizer o seguinte: Se não houver
o freio da Escritura, se não houver limite, ninguém sabe
onde isso vai parar. Até o próprio John Wimber disse: “Tem
hora que tenho que dizer basta”. Tem muita gente entusiasmada com
esse tipo de movimento, mas nós já podemos ver o fim deles,
o que vai acontecer. Porque o movimento que não se baseia exclusivamente
na Palavra de Deus, que não parte da suficiência da Escritura,
e não se submete ao crivo da Bíblia, não tem cerca.
O movimento
no Brasil - O que está acontecendo em Toronto e em outros lugares
nos Estados Unidos, infelizmente, é o que irá acontecer,
segundo cremos, no Brasil. Com o rumo que o movimento de “Batalha
Espiritual” está tomando hoje, no mundo todo, precisamos
ficar apostos quanto à nossa Igreja.
Peter Wagner
que defendeu o crescimento de Igreja com sinais e prodígios, abraçou
logo em seguida a idéia de batalha espiritual como sendo necessária
para fazer sua Igreja crescer. Não estamos dizendo que todo mundo
que defende o movimento de crescimento de Igreja também é
do movimento de “Batalha Espiritual”. Mas é preciso
ficar claro que existe essa relação entre as duas coisas
e você tem que ficar de olho aberto para entender bem o que está
acontecendo no movimento de crescimento de Igreja, junto com batalha espiritual.
Não estamos dizendo que são todos, mas na pessoa de Wagner
e de muitos outros você vai encontrar esta fusão. Assim,
Wagner pode ser visto como o teólogo do movimento. No Brasil, ele
ganhou muitos adeptos; o mais conhecido é a Drª. Neusa Itioka,
que é membro da equipe da SEPAL e que se tornou conhecida pela
publicação do seu livro: “Deuses da Umbanda”,
que na realidade foi sua tese de doutorado em Missiologia no Seminário
de Fuller. No livro “Deuses da Umbanda”, Neusa Itioka coloca
nomes nos demônios que controlam o Brasil, e a grande crítica
que se faz contra ela é quanto à fonte de informação
que usou para descobrir os nomes dos demônios, porque a Bíblia
não dá nome a nenhum demônio. À exceção
daquela legião, que simplesmente quer dizer “muitos”,
e de Satanás, a Bíblia não dá nome a demônio
nenhum. Como, então, Neusa Itioka sabe os nomes dos demônios
que estão no Brasil? A resposta dela é que soube disso através
de informação de pessoas endemoninhadas em tratamento no
seu gabinete. Mas, desde quando o testemunho de pessoa endemoninhada ou
o testemunho de demônios pode servir de base para formulação
doutrinária? Outra pessoa também que tem difundido muito
essa idéia, embora menos teologicamente, é a conhecida Valnice
Milhomens, através dos seus escritos e especialmente através
dos seus simpósios e programas de televisão. Além
disso, centenas de simpósios sobre batalha espiritual, conferências
sobre o assunto e uma grande quantidade de literatura, a maior parte traduzida
do inglês para o português, têm divulgado o movimento
no Brasil
Em primeiro
lugar, gostaríamos de dizer, antes de fazer uma análise
seguida de uma crítica do pensamento deles, que não estamos
negando nem a sinceridade, nem a honestidade, nem o desejo de servir a
Deus e nem mesmo a conversão de quem quer que seja. Estamos tratando
as coisas no campo das idéias. Não estamos dizendo que porque
alguém abraçou o movimento de “Batalha Espiritual”
não é crente. Não estamos dizendo que Neusa Itioka
não é crente, que Valnice e Peter Wagner não são
crentes. Ao tratar desse assunto, que Deus nos dê humildade e também
dor no coração para com a situação.
Demônios
especialistas - Fica difícil dizer o que eles crêem por causa
das divergências existentes entre si. Mas há uma base na
qual todos eles se firmam. Em um livro que está para ser publicado
pela Casa Editora Presbiteriana, o autor faz uma distinção
que nos ajuda muito. Ele colocou o dedo no ponto crucial da “Batalha
Espiritual”: O conceito de que todo mal que existe no mundo, qualquer
que seja sua natureza, quer seja mal moral, pecado, desastre, etc. é
causado pela ação direta de um ou mais demônios que
são especialistas em causar aquilo. Portanto, a única solução
apresentada por eles é um ministério ekbalístico.
(que quer dizer “lançar fora”, “expelir”).
Para o pessoal do movimento de “Batalha Espiritual”, o único
modo possível de ministério é o ministério
ekbalístico, já que tudo que aflige o indivíduo,
a Igreja, e a sociedade é produzido pela interferência, pela
atuação e pela influência de demônios. Assim,
a solução só pode ser uma: amarrá-los, controlá-los,
proibi-los, repreendê-los, etc. Então, se você compreende
isso, você já conhece a porta de entrada para o movimento
de "Batalha Espiritual".
Com essa base,
será possível entender tudo o que eles fazem. O ministério
ekbalístico refere-se, então, àquele tipo de ministério
crido e exercido por muitos pastores no Brasil: a expulsão de demônios.
Isso é visto por eles como a arma principal da Igreja, talvez a
única arma para resolver todos os problemas da Igreja e da sociedade.
Vamos supor: alguém está sofrendo de pensamentos sensuais,
é crente, não consegue se livrar de pensamentos lascivos,
devaneios eróticos, imagens contra as quais venha lutando, etc.
Se essa suposta pessoa for a um conselheiro ekbalístico ele vai
dizer o seguinte: “Isso está acontecendo porque tem um demônio
entrincheirado na sua vida e que está produzindo esse tipo de coisa
e você não vai resolver o problema enquanto você não
expelir esse demônio da sua vida”. Então, possivelmente,
o que vai acontecer é que vai haver uma sessão de exorcismo
onde o conselheiro vai repreender o demônio e mandar que saia e
o cidadão vai embora sentindo-se bastante aliviado. Possivelmente
os pensamentos vão voltar, a pessoa vai regressar e repetir o mesmo
processo por umas duas ou três vezes. Finalmente, o conselheiro
ekbalístico vai dizer: “Você tem que aprender você
mesmo a expulsar o demônio”. Eles ensinam, então, uma
técnica para localizar o demônio fisicamente na parte do
corpo em que ele se encontra, colocar a mão ali e ordenar que o
demônio saia em nome de Jesus. Assim a pessoa passa a se automedicar,
expelindo os demônios todas as vezes que eles voltam. Essa é
a abordagem deles. Contudo, se o mesmo suposto personagem for a um conselheiro
bíblico, a interpretação será outra. O conselheiro
dirá: “Meu filho, comece a queimar as revistas ‘Playboy’
do seu quarto, depois pára de ver esses filmes com figuras e pensamentos
eróticos, pára de andar com certas companhias que provocam
a sua sensualidade, começa a lutar sério com isso, aprenda
a orar, pedir a Deus que lhe guarde, tenha uma vida reta, toma muito banho
frio, joga bola, e aprenda que o caminho para se libertar disso é
chamado pela Bíblia de ´santificação`, um processo
árduo que exige a mortificação da natureza humana”
O fato de “amarrar” um ou mais demônios não vai
resolver isso. Como se vê, o ponto principal do movimento de “Batalha
Espiritual” é o conceito de que todos os problemas do indivíduo,
da Igreja, e da sociedade são causados por demônios que estão
instalados em posições estratégicas e geográficas
cabendo à Igreja a responsabilidade, segundo o movimento, de ir
a esses demônios e anular a atuação deles. Essa é
a base do pensamento, é a porta de entrada para a teologia de batalha
espiritual deles.
Espíritos
territoriais - Como já mencionamos, temos que compreender esse
conceito de espíritos territoriais. Há um livro que foi
editado por Peter Wagner, recentemente publicado, onde ele fala sobre
esses espíritos. Para eles, os espíritos ocupam determinados
territórios geográficos, regiões que podem abranger
países, estados, cidades, bairros, e até casas e ruas. A
idéia é que para cada região geográfica existem
um, dois ou três demônios responsáveis pelo pessoal
que mora ali. O trabalho deles é cegar as pessoas, levá-las
à perdição e impedir que a Igreja penetre ali. Esse
seria o trabalho dos espíritos territoriais. O alvo deles é
cegar as pessoas daquelas regiões, pelas quais eles são
responsáveis, através do ocultismo, Nova Era, astrologia,
satanismo, uso de pirâmides, cristais, bruxaria, macumba, etc. O
segundo objetivo desses demônios seria oferecer total resistência
aos esforços da Igreja para entrar naquela área, impedir
a abertura da área para a entrada da Igreja. Para isso eles cegam
e oprimem os crentes. No caso mais extremo, alguns defensores de “Batalha
Espiritual” crêem na possessão demoníaca dos
crentes. O crente poderia ficar possesso, segundo eles. Neusa Itioka,
partindo de um estudo de Gilberto Piker, procura fazer distinção
entre possessão e demonização. Ela não aceita
que o crente possa ser possuído, mas acredita que pode ficar demonizado.
Neusa está trabalhando em cima de uma distinção que
foi feita por Gilberto Piker, no seu livro sobre guerra espiritual. Parece-nos
bastante infeliz essa idéia e sem qualquer apoio na língua
grega. Ele acha que temos traduzido daimonitzo, que é o verbo para
indicar possessão, de uma forma errada. Segundo ele, a tradução
correta seria “ficar demonizado”. Assim, Piker entende que
possessão significa estar totalmente sob o controle do Diabo e
demonização significa que um demônio entrou na vida
de alguém e ocupa uma área. Então, enquanto alguns
diriam que o crente pode ficar totalmente possesso, como Neuza Itioka,
Gilberto Piker, fala em demonização de áreas da vida
em que o demônio pode chegar e se entrincheirar e de onde só
sairá através do ministério ekbalístico. Os
demônios fariam isso na Igreja para impedir o seu avanço,
atacando pregadores, promovendo pecados de divisão e semeando confusão.
Outro ponto
interessante é que, segundo eles, o quartel general dos demônios,
o território que eles chamam de “trono de Satanás”
está localizado em um ponto geográfico. Quando Peter Wagner
esteve aqui no Brasil, convidado pela Comissão Nacional de Evangelização
da Igreja Presbiteriana naquela época, ele defendeu abertamente
em Campinas a idéia de que estas regiões têm um local
geográfico, que é conhecido como “trono de Satanás”,
onde o líder dos demônios daquela região tem o seu
quartel general e de onde controla os seus subordinados que cegam as pessoas
e oferecem resistência à Igreja. Por conseguinte, a Igreja
não pode progredir, crescer e evangelizar enquanto não neutralizar
estas forças espirituais cósmicas. Seria inútil a
Igreja começar uma campanha de evangelização numa
nova área sem primeiro neutralizar esses espíritos territoriais
que estariam ali entrincheirados. Primeiro temos que amarrar o valente
e depois é que podemos saquear a casa. Essa é a estratégia
missionária do movimento de “Batalha Espiritual” associada
com o crescimento da Igreja. Primeiro tem que neutralizar os demônios,
neutralizar suas fortalezas, tirar-lhes o domínio daquela região,
e só assim a Igreja vai poder entrar, evangelizar e conquistar
as pessoas para Cristo. A Igreja não deve ficar na defensiva. A
reflexão inicial que fizemos sobre Efésios 6, mostrando
que a Igreja já é vitoriosa e está na defensiva,
essa nossa posição é totalmente inaceitável
para eles. Segundo o movimento, temos que sair caçando Satanás,
derrubando esses territórios, neutralizando a ação
dos demônios e travando uma batalha cósmica nas regiões
celestes.
Técnicas
contra os espíritos - Segundo Wagner, nem todo mundo pode ser um
guerreiro de oração, se não estiver preparado. Satanás
vai devorá-lo no café da manhã. Como ninguém
quer ser devorado por Satanás no café da manhã, os
crentes vão em massa para o simpósio de “Batalha Espiritual”
aprender com os “peritos” as estratégias e as táticas
para enfrentar o inimigo e conquistar seus territórios. Esses “peritos”
ensinam aos crentes os segredos de como atacar, nas regiões celestiais,
essas forças espirituais. J.O. Fraser, na década de 30,
não tinha idéia do que o seu pensamento iria produzir no
século XX.
O que a Igreja
deve fazer, segundo o movimento? Em primeiro lugar, fala-se muito em mapeamento
espiritual. A idéia é que assim como se pode ir para uma
cidade e mapear as suas diversas localidades e os seus acidentes geográficos,
pode-se, também, fazer um mapa das regiões celestiais. Chamam
isso de “mapeamento espiritual”. Dizem que há uma superposição
do que está acontecendo nas regiões celestes com o que está
acontecendo na terra. O mapeamento espiritual consistiria em descobrir
basicamente duas coisas: a) onde estão localizados os demônios
que controlam uma determinada região; b) quais os nomes deles.
A idéia é que o conhecimento do nome do demônio dá
poder sobre ele. Por isso dão tanta ênfase à necessidade
de conhecer o nome dos demônios. Essa idéia veio, possivelmente,
do gnosticismo antigo que o Dr. Horton chamou de “tecnologia espiritual”.
Os gnósticos acreditavam que quando você tinha determinado
conhecimento, você tinha controle de Deus e podia ter acesso a ele
quando quisesse. Isso, portanto, é um reavivamento de certos aspectos
do gnosticismo antigo, quando se conhece o nome de um demônio tem-se
autoridade sobre ele.
Quanto à
questão do trono de Satanás, Wagner ensinou um método
para localizá-lo e derrubá-lo. Primeiro, toma-se o mapa
da região, divide-o em quadros e anda-se por eles orando em cada
um deles. Na área em que a maior opressão se manifestar,
onde se torna quase impossível orar, é que está a
maior concentração de demônios e ali, possivelmente,
estará o trono de Satanás. O que deve ser feito é
a promoção de uma corrente de oração trazendo
guerreiros de oração para que derrubem o trono de Satanás.
Uma vez feito isso, a região estará livre e poderá
ser evangelizada com sucesso. No livro “Espíritos Territoriais”
há uma ilustração interessante: Havia um cidadão
na fronteira do Brasil com o Uruguai. No Uruguai, ele recebeu um folheto,
mas ao lê-lo, nada aconteceu. Quando o cidadão cruzou a fronteira
e entrou no Brasil, ele se converteu. Explicação dada: “Os
demônios do lado do Uruguai não estavam amarrados, ao passo
que, no lado brasileiro, eles estavam amarrados”. Segundo eles,
ninguém se converte enquanto essas entidades não forem anuladas.
Essa é a implicação do conceito do movimento de que
todo mal existente no mundo é causado pela ação direta
de um demônio. Portanto, a solução sempre seria a
de atacar os demônios com um ministério ekbalístico.
Então, esses simpósios ensinam fazer mapas espirituais;
localizar e derrubar o trono de Satanás; orar intercessoriamente,
em voz alta, determinando a queda das fortalezas; amarrar demônios
pela palavra, especialmente os demônios ligados a certas atividades
como embriaguez, vícios em geral, uso de drogas, etc.; dar ordens
diretas aos demônios, repreendê-los e mandá-los para
o abismo.
Quebrando
maldições - Um desenvolvimento recente encontra-se na questão
da maldição hereditária. Essa ênfase tem sido
dada por Valnice Milhomens, Neusa Itioka, Jorge Linhares e Robson Rodovalho;
este, da Comunidade de Goiânia. Eles entendem que os demônios
passam a ter autoridade na vida de uma pessoa quando alguém lança
uma praga. Por exemplo, quando um pai diz a um filho: “menino, que
o Diabo te carregue!”. Por causa disso, o demônio vai controlar
a vida desse menino e mesmo que ele se converta, se não se quebrar
essa maldição, ele não conseguirá ser feliz
porque ela o acompanhará pelo resto da vida. Assim, palavras descaridosas
dos pais, xingamento, coisas más que são ditas, dariam autoridade
aos demônios sobre as pessoas. Jorge Linhares conta que comprou
um carro novo e, viajando, atropelou um coelho; na semana seguinte, atropelou
um cachorro; na terceira semana, um passarinho bateu no parabrisa e morreu.
Então ele orou: “Senhor, eu quero saber o que está
acontecendo, tem alguma coisa errada com esse carro”. Ele diz em
seu livro que o Espírito Santo revelou-lhe que aquele carro estava
amaldiçoado e que ele devia quebrar todas as maldições;
então ele foi e anulou todas as maldições que havia
naquele carro. Qual é a conclusão lógica? Quando
chegou em casa ele saiu de quarto em quarto anulando a maldição
do refrigerador, da televisão, da mesa, etc. Isso porque ele cria
que o Espírito tinha lhe revelado que o carro estava amaldiçoado
porque foi produzido numa fábrica de ímpios. Há pessoas
que crêem seriamente nisso e estão fazendo isso mesmo.
Robson Rodovalho
ensina que para anular maldições hereditárias deve-se
traçar uma árvore genealógica com todos os ascendentes
e investigar a vida de todos os antepassados para saber se eles fizeram
algum pacto com o Diabo, se há algum pecado que se repete na família
o tempo todo, como separação, ou outra característica
da família; e então, ensina o que fazer para quebrar essas
maldições.
Pontos positivos
- Gostaríamos de fazer uma breve avaliação do ensino
do movimento de “Batalha Espiritual” e oferecer uma alternativa
bíblica para a questão. Tentaremos cobrir os pontos básicos:
Primeiramente, vamos fazer uma avaliação positiva do movimento.
Há pelo menos três coisas boas em tudo isso:
a) a conscientização
que esse movimento vem trazer à Igreja da realidade do poder e
da atuação das hostes espirituais da maldade. A tendência
e a tentação das igrejas reformadas calvinistas têm
sido a de esquecer-se de que a luta não é contra carne e
sangue, mas contra principados e potestades. Às vezes, a ênfase
na igreja reformada calvinista é muito forte na questão
do conhecimento, do treinamento doutrinário, e da precisão
teológica na mente. Por vezes pensamos que qualquer coisa no reino
de Deus sempre se processa no campo das idéias. Sem, naturalmente,
querer desmerecer esta verdade, precisamos destacar que o verdadeiro calvinismo
ensina a importância de uma mente preparada, sem se esquecer do
valor de um coração aquecido, um coração em
chamas pelo Evangelho, por amor a Deus, amor à Igreja, amor à
glória de Cristo, que deseja ver essa glória espalhada pelo
mundo. Não podemos dissociar essas duas coisas. Se ficarmos só
na questão intelectual seremos reformados frios; e o que tem acontecido
é que esta frieza tem entrado nas igrejas. Em outros países,
onde estudamos, professores de seminários não acreditam
em possessão demoníaca. Eles não têm nenhuma
preocupação com o que a Escritura diz com respeito às
astutas ciladas do Diabo. O fato de que Satanás anda ao nosso redor
como leão que ruge, procurando a quem possa devorar, não
desperta neles a menor preocupação. Tudo isso é considerado
como sendo coisa do período apostólico e que cessou. Há,
portanto, esse perigo e certamente esse movimento vem nos conscientizar
dele.
Quando Paulo
escreveu a carta aos Efésios, ele estava preso e, portanto, impedido
de prosseguir na evangelização. Entretanto, Paulo não
via a coisa apenas do ponto de vista meramente humano. Ele estava preso
porque o imperador o havia abrigado como preso político e porque
os judeus o entregaram ao imperador. Mas Paulo, ao analisar a situação,
vê além disso. Ele sabia que por detrás do imperador
e dos judeus que o colocaram ali, estavam forças espirituais da
maldade nos lugares celestiais. Às vezes a Igreja esquece esse
aspecto. É claro que o extremo oposto é de gente que vê
o Diabo em tudo, em qualquer coisa, mas o outro extremo é esquecer
da existência da atuação, da realidade dessas forças
malignas ao nosso redor. Cremos que esse movimento, mesmo sendo definitivamente
estranho aos ensinos bíblicos, pode nos ajudar a corrigir a nossa
tendência de ir aos extremos.
b) O segundo
ponto positivo é o zelo evangelístico. Como vimos, esse
movimento nasceu no campo missionário, numa tentativa de ganhar
pessoas para Cristo, libertá-las e levar o Evangelho a elas. É
verdade que hoje o moderno movimento de crescimento de Igreja já
perdeu muito desse zelo missionário de ir a outros povos e praticamente
se tornou uma metodologia urbana de igrejas grandes; mas as raízes
do movimento são missionárias e esse pessoal, muitos deles,
têm um zelo muito grande no trabalho de ganhar as pessoas para Cristo
e levá-las ao conhecimento de Deus. Isso vem fustigar, às
vezes, a mornidão e indiferença das igrejas reformadas;
a acomodação que vem às igrejas calvinistas que não
têm visão missionária. Esse pessoal tem essa preocupação,
alguns com motivos errados, mas pelo menos a preocupação
existe.
c) Uma terceira
coisa é a ênfase que eles dão à oração.
Eles estão orando pela coisa errada, mas pelo menos acreditam que
pela oração podem fazer alguma coisa. Sabemos que é
Deus quem faz todas as coisas, mas também sabemos que Deus manda,
em Sua Palavra, que oremos e que a Igreja ore e que interceda. Paulo mostra
isso no final do capítulo seis de sua carta aos Efésios,
ao pedir que a Igreja estivesse orando em todo o tempo no Espírito
por todos os santos e também por ele para que lhe fosse dada a
Palavra. Assim, embora o movimento de “Batalha Espiritual”
tenha a ênfase errada, a vida de oração que ensina
serve de chicote de Deus para nós.
Talvez um
lugar onde seja mais fácil negligenciar uma vida de oração
seja no seminário. Quando o seminarista chega ao seminário,
calouro, feliz, ele ajoelha toda noite e sabe de cor o nome de todos os
membros da sua Igreja, dos seus amigos e a favor de cada um ora de joelhos
durante o seu primeiro ano. No segundo, ele já não conhece
os nomes de cor e prepara, então, uma lista. Então, à
noite, ele se ajoelha, pega a lista e diante de Deus lê o nome daquelas
pessoas e pede que Deus as abençoe. No terceiro ano, ele já
pregou a lista na parede. À noite, ele se ajoelha e diz: “Senhor,
abençoa os nomes que estão nessa lista”. Esse movimento
vem nos lembrar que sem oração, sem buscar a Deus, sem obedecer
a ordem das Escrituras de que temos que orar Deus não nos abençoará.
Erros do
movimento - Agora, ao mesmo tempo em que destacamos esses pontos positivos,
temos também alguns questionamentos sinceros, algumas preocupações
verdadeiras; mas, antes de apresentá-las, queremos dizer duas coisas:
Primeiro, cremos na realidade e na atuação dos demônios
conforme o ensino bíblico. Não entendemos que toda atividade
demoníaca foi restrita ao período apostólico, não
há base para dizer isso. Segundo, cremos no poder da oração
e cremos que o crente fortalecido no Senhor, na força do seu poder,
é capaz de enfrentar e vencer as tentações do Diabo.
Agora vamos
ver algumas críticas. São seis ou sete observações.
A ordem que vamos seguir não tem que ver com a ordem de importância,
mas a primeira merece destaque:
1. Apesar
do tom de autoridade desses “peritos”, o que eles falam, a
grande maioria das estratégias propostas, não tem base bíblica.
Suas técnicas parecem mais com um misticismo exagerado. Por exemplo,
onde, na Bíblia, vamos encontrar uma orientação,
uma ordem do Senhor Jesus, para que os apóstolos e a Igreja localizassem
e derrubassem o trono de Satanás? Por que Jesus nunca ensinou isso
aos apóstolos e os apóstolos nunca ensinaram isso às
Igrejas? Onde vamos encontrar, no Novo Testamento, o Senhor Jesus ensinando
aos apóstolos que eles deveriam amarrar Satanás por meio
de palavras? E onde vamos encontrar os apóstolos ensinando as Igrejas
que na batalha contra o Diabo elas poderiam amarrar Satanás com
a autoridade que Jesus deu? Onde vamos encontrar que a Igreja deve se
organizar para, através da oração, fazer guerra contra
o trânsito, como o pessoal de “Batalha Espiritual” em
Los Angeles amarrou os demônios no engarrafamento, durante as Olimpíadas?
Amarraram os demônios da maldição do triângulo
das Bermudas. Na revista News Week saiu a notícia de que não
houve engarrafamento no trânsito em Los Angeles durante as Olimpíadas
porque eles decretaram a prisão do demônio do engarrafamento.
Onde está na Escritura que a Igreja deve se unir em oração
para fazer isso? É claro que não tinha engarrafamento na
época de Paulo.
Segundo o
pensamento de alguns deles, os demônios não só atuam
em pessoas mas, também, em estruturas. Neusa Itioka afirma que
o problema do funcionalismo público no Brasil é que existe
um demônio do funcionalismo público. Ela afirma isso! No
seu livro: “Você Está em Guerra”, publicado agora
pela SEPAL, ela fala que o problema do funcionalismo público no
Brasil é um demônio que está entrincheirado nas estruturas
econômicas, e o problema do racismo no Brasil é que quando
foi assinada a Lei Áurea, resolveu-se o problema externo, mas ninguém
passou uma canetada amarrando o demônio do escravagismo; por isso
a raça negra continua sendo desprezada, ridicularizada e menosprezada.
Certamente não vamos encontrar esse ensino na Escritura. Por que
o apóstolo Paulo não promoveu uma campanha entre as suas
Igrejas para amarrar o imperador ou destronar o poder do Império
Romano que estava matando cristãos? Por que Paulo não fez
uma campanha para acabar com a escravidão, amarrar o demônio
da escravidão que havia no Império Romano? Por que Paulo
não fez nada disso? Onde encontramos na Escritura que para o homem
ser feliz ele tem que quebrar as maldições hereditárias?
A interpretação
que o movimento de “Batalha Espiritual” tem dado à
passagem de Êxodo 20 consiste num crasso erro de hermenêutica.
Nunca se deve pegar um texto isoladamente, para elaborar uma doutrina.
Êxodo 20 tem que ser interpretado à luz de Ezequiel 18, onde
o profeta repreende a nação porque o povo estava dizendo:
“os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos é que
embotaram”. O profeta disse: “de forma nenhuma. A alma que
pecar essa morrerá”. Se um homem justo gerar um ladrão,
as bênçãos do justo, os méritos do justo não
vão passar para o filho ladrão; ele vai morrer debaixo da
ira de Deus; e se o filho ladrão gerar um filho justo nada do que
o pai fez de errado vai cair sobre esse filho justo. Assim, devemos interpretar
Êxodo 20 à luz dos profetas, do Novo Testamento, onde está
escrito que em Cristo Jesus todas as nossas cadeias, toda a nossa dívida
foi desfeita. Essa é a nossa primeira preocupação,
a falta de base bíblica para essas ousadas afirmações.
Outra coisa:
Por que Paulo sofreu durante catorze anos com um espinho que ele expressamente
diz que era um mensageiro de Satanás? Não sabemos a natureza
do mensageiro, mas sabemos sua procedência, era de Satanás.
Por que durante catorze anos Paulo sofreu com aquele enviado de Satanás?
O que ele fez foi pedir a Deus, três vezes, humildemente, que tirasse
aquele espinho. E nem assim ele foi atendido. Como se explica isso? Como
se explica que Paulo, querendo voltar a Tessalônica, tenha sido
barrado por Satanás (I Ts 2:18; 3:1)? Qual foi a estratégia
de Paulo? Aqui está um caso típico de guerra espiritual,
ele queria voltar a Tessalônica, onde tinha deixado uma Igreja de
novos convertidos, mas não pôde porque Satanás lhe
barrou o caminho. Não sabemos a natureza da barreira. A palavra
“barrar” significa: “cavar uma trincheira”, vem
da linguagem militar, cavar uma trincheira para que o inimigo não
passe. Está claramente caracterizado um caso em que o missionário
quer entrar no campo mas o Diabo coloca obstáculo. O que fez o
apóstolo Paulo? Ele não amarrou, não determinou queda,
não repreendeu, não mandou de volta para o abismo. Não
podendo ir pessoalmente a Tessalônica, ele simplesmente enviou Timóteo.
Mais duas coisas: Ele orou, escreveu uma carta e mandou Timóteo
driblar a barreira e ir em seu lugar. Segundo os padrões de “Batalha
Espiritual” moderno, Paulo era um verdadeiro crente frio, “não
era presbiteriano”.
De onde vêm
essas técnicas, de onde elas se desenvolveram? Há duas fontes:
primeiro, do pragmatismo; - “se funciona, então está
certo”. Neusa Itioka, nesse livro que saiu agora, diz que os demônios
ganham autoridade para sentar no pescoço de alguns crentes. Ai
você pergunta: Neusa, de onde você tirou essa idéia?
Certamente a resposta não será: “das Escrituras”,
pois isso não está na Bíblia. A resposta dela será:
“eu tenho observado no meu gabinete que muitos crentes que vêm
se queixando de determinados pecados, também vêm sofrendo
com dores no pescoço. A conclusão dela é que o demônio
monta no pescoço. É uma questão tragicômica.
A base da maioria das práticas desenvolvidas por esse movimento
vem dessa forma. Uma vez, um defensor do movimento, conhecido aqui no
Brasil, foi fazer uma palestra numa igreja em Minas; quando acabou de
falar, ele perguntou aos presentes: “Quem ficou com sono durante
a palestra”? As pessoas levantaram a mão e ele chamou-as
para a frente e disse: “Vou orar, agora, repreendendo o demônio
do sono da vida de vocês”. Orou, expulsou o demônio
do sono, e na saída o pessoal foi falar com ele. Disseram: “onde
é que você tem base para dizer que se uma pessoa está
cochilando durante a sua palestra, aquilo é um demônio que
está causando sono”? Porque, na realidade, se olhar na Bíblia,
o sono é uma bênção de Deus. Tem gente que
daria qualquer coisa no mundo para passar uma noite de sono profundo.
Em nenhum momento da Escritura isso está ligado a uma ação
demoníaca, como é que você sabe disso”? Ele
respondeu: “Eu sei que não está na Escritura, mas
Deus me revelou”. São essas as fontes básicas do movimento:
Revelações especiais diretas de Deus e experiências
práticas. Em outras palavras: Isso é uma mistura de pragmatismo
e misticismo.
2. Outra coisa
que tem nos preocupado é a influência doutrinária
da “Confissão Positiva”, nas práticas do movimento.
O movimento de “Confissão Positiva” começou
com o pastor Essek William Kenyon, dos Estados Unidos. Ele pegou a idéia
de filósofos sobre o poder da palavra; - “a palavra cria”
- e trouxe isso para dentro da Igreja, criando a idéia de que pela
palavra o crente consegue criar realidades ao seu redor. Um dos discípulos
de Kenyon é Paul Young Cho, com aquele famoso livro, que fez muito
mal ao Brasil, chamado “A Quarta Dimensão”, onde se
lê que você visualiza, mentaliza e pela palavra você
cria resposta à sua oração, exatamente do jeito que
você queria. Outro discípulo é Benny Hinn, cuja literatura
está espalhada pelo Brasil. Sua idéia é basicamente
esta: Assim como Deus no começo criou todas as coisas pela palavra
do seu poder, nós, porque somos deuses, podemos igualmente criar,
podemos criar circunstâncias através da palavra.
Há
pouco tempo recebemos um livro escrito por um pastor chamado Hank Hanegraaff,
dos Estados Unidos, e ele mandou, acompanhando o livro, duas fitas onde
colecionou as próprias palavras e expressões usadas por
Benny Hinn e outros, tiradas da televisão e de revistas. Ele fez
uma coletânea para que os evangélicos ouvissem, nas próprias
palavras desse pessoal, o ensino deles. Benny Hinn diz: “Você
não tem um deus dentro de você, você é deus”.
O que está por detrás disso é a idéia de que
podemos criar como Deus criou, porque nós também somos deuses.
Um outro evangelista dessa linha diz o seguinte: “Não diga
que você está doente, você simplesmente bata em seu
corpo e diga: ´Ah! esse corpo saudável!` Porque na hora em
que você disser: ´eu estou doente` você vai ficar doente,
porque a palavra tem poder. Mas diga: ´eu estou curado`. Não
diga também que você está pobre, bata no seu bolso
e diga: ´Ah! carteirinha cheia de dinheiro`” Esse pensamento
da palavra criadora está por detrás de muitas das estratégias
do movimento de “Batalha Espiritual”. Ou seja, a voz de autoridade
e comando dos crentes vai criar aquilo que eles estão dizendo e
aquela vocalização vai derrubar fortalezas, vai amarrar
o Diabo, vai repreender os demônios, e vai criar realidades favoráveis
ao crescimento da Igreja. Então há a influência do
movimento. Essa idéia de confissão positiva, não
é só idéia da "Teologia da Prosperidade",
mas também do movimento de “Batalha Espiritual”.
3. As ênfases
do movimento comprometem o conceito da suficiência de Cristo no
Evangelho. Todos precisam saber que essa teologia de “Batalha Espiritual”
nasceu em solo arminiano; Peter Wagner é arminiano, Neusa Itioka
é arminiana e Valnice é arminiana. Uma teologia dessa jamais
poderia florescer em solo Reformado. Isso porque a Teologia Reformada
coloca a sua ênfase na soberania de Deus, no senhorio de Jesus Cristo,
e na suficiência de Cristo e sua Palavra. Assim, esse movimento
acaba atacando a suficiência de Cristo. Não é suficiente
o que o nosso Salvador fez por nós na cruz e na ressurreição,
temos que completar isso quebrando as maldições hereditárias,
dizem eles. As afirmações da Escritura sobre a vitória
de Cristo na cruz do calvário e a sua ação de anular
as obras do maligno não são suficientes, temos que completar
isso amarrando o que Ele deixou de amarrar, dizem eles.
4. O movimento
tende a isentar os crentes da sua responsabilidade moral, e de todo o
processo de santificação, como demonstramos naquele exemplo
da pessoa que procura o conselheiro, porque tem pensamentos impuros. O
que acontece é que pessoas que abraçam esse movimento e
que começam a ver os demônios como responsáveis, inclusive
pelos seus próprios pecados individuais, acabam finalmente a se
sentir isentos de qualquer responsabilidade. Não é difícil
encontrar pessoas que dizem: “Meu casamento deu errado, o Diabo
entrou ali, fez a maior bagunça; o Diabo tomou conta de mim, eu
não sabia o que estava fazendo, bati na minha esposa, mandei meus
filhos embora, etc.” O Diabo acaba sempre sendo o responsável
e os homens ficam isentos de culpa, pois agiram debaixo da influência
do Diabo. Isso pode ser visto nos grandes tele-evangelistas dos Estados
Unidos. Um deles, depois de um grande e comprovado escândalo moral,
foi à televisão e disse: “Irmãos, eu sei o
que fiz, mas foi o Diabo que me levou a fazer, eu não sabia o que
estava fazendo, o Diabo fez isso”. Esse é o resultado, quanto
à responsabilidade individual. O caminho do quebrantamento, do
arrependimento, da mortificação fica cada vez mais distante
à medida que a ênfase recai nesse tipo de coisa. Alguns meses
atrás recebemos um convite que dizia o seguinte: “Achamos
que o Brasil está vivendo um momento de grande avivamento espiritual,
e há uma mudança na liturgia e um retorno dos dons espirituais,
mas notamos que está faltando uma coisa essencial e queremos convidar
o irmão a participar como preletor de uma série de conferências
sobre santidade”. É a primeira conferência sobre santidade,
por achar que está faltando santidade no avivamento. Há
o avivamento, mas está faltando santidade, então vamos promover
um simpósio sobre santidade.
5. O movimento
tende a criar uma obsessão doentia por Satanás, demônios
e as coisas do ocultismo. A cosmovisão da Escritura é a
seguinte: a Bíblia não nos manda olhar o mundo pela ótica
da atuação dos demônios, embora nos ensine a reconhecer
a presença deles. O problema do pessoal que abraçou o movimento
de “Batalha Espiritual” é que eles olham o mundo dessa
perspectiva, filtrada pela atuação dos demônios. Portanto,
eles vêem demônios atuando em todas as coisas. Essa não
é a cosmovisão da Bíblia. Essa é a maneira
do mundo ver as coisas, dos povos pagãos do passado e das religiões
gregas do passado, em que para cada árvore, cada casa, cada pedra,
havia uma fada, um duende ou coisa dessa natureza; era uma visão
pagã do mundo e não uma visão bíblica. A Bíblia
reconhece a presença e atuação do inimigo, mas não
nos ensina a viver como se em cada esquina houvesse um demônio esperando
para nos devorar.
Estivemos,
há alguns dias, em uma certa cidade. Ficamos hospedados na casa
de um pastor que abraçou o movimento de “Batalha Espiritual”.
Ele nos contou que o menino dele, de seis anos de idade, não conseguia
dormir mais sozinho no quarto e vinha sempre para o quarto dele. Perguntamos
como isso aconteceu, e ele contou que quando chegaram à cidade,
a Igreja alugou um apartamento para a sua família; depois, com
o crescimento da Igreja, o Conselho resolveu comprar uma casa que havia
na região. Ele e sua família mudaram-se para a nova casa.
Na primeira e também na segunda noite que passaram na casa, eles
foram acordados pelos gritos da empregada “urrando” e se batendo
pelos corredores; e o menino presenciou tudo. O pessoal da região
dizia que a razão estava no fato da casa ser mal assombrada. A
Igreja a havia comprado porque era uma casa barata, que ninguém
quis comprar. Então, uma senhora da Igreja, que tem o ministério
de quebrar maldições, foi levada à casa para exorcizá-la,
e o menino presenciou tudo. A mulher foi de quarto em quarto amarrando
e desfazendo toda a obra maligna, etc. Daquele dia em diante o problema
não se repetiu mais. Depois de ouvir o pastor, fizemos com que
ele visse que estava enganado, o problema continuava. O filho dele não
estava conseguindo dormir. O problema era que o menino viu tudo o que
fizeram e ficou com a convicção de que mesmo no recinto
de um lar, debaixo da graça e proteção do Cordeiro,
a qualquer momento ele poderia ser atacado por entidades malignas. Mas
o fato não é apenas que esse menino vai crescer traumatizado;
o pai dele já estava obcecado e centenas de crentes no Brasil,
em nossas Igrejas, vivem obcecados e com medo disso. Essa não é
a maneira bíblica de ver o mundo. Essa é a visão
pagã do mundo. Satanás, e não Cristo, tem se tornado
o centro do ministério de muitos. Cristo deixou de ser o centro
do ministério de muita gente, e o seu lugar de primazia foi ocupado
pelo Diabo e sua atuação.
6. O movimento
trouxe de volta uma heresia que a Igreja já havia descartado há
muito tempo, o dualismo. O maniqueísmo, para ser mais exato. Como
todos sabem, essa corrente de pensamento ensina que o mundo é controlado
por duas forças iguais, o bem e o mal. A Igreja já condenou
isso como heresia. O que acontece no mundo não é determinado
pelo conflito de duas forças opostas, uma boa e outra má,
como se Deus e o Diabo fossem iguais e estivessem lutando pelo controle
do mundo. Pelo contrário, o ensino das Escrituras é que
Deus é o Senhor; Ele tem todas as coisas debaixo do Seu controle
e o Diabo não mexe um dedo sem a permissão de Deus. Ele
só vai aonde Deus permite. O Diabo é apenas uma criatura,
mas do jeito que ele é pintado nesse movimento parece que ele é
um poder, senão igual, mas pelo menos independente de Deus. Ele
faz o que quer e Deus é que tem que vir atrás para consertar.
O Diabo não é um poder independente de Deus; ele só
faz o que Deus permite, e Deus o usa inclusive nos Seus propósitos;
é por isso que dissemos que essa teologia não brotaria no
solo calvinista, reformado. Isso só poderia brotar na teologia
arminiana, segundo a qual praticamente Deus não tem controle nenhum;
o Diabo faz o que lhe apraz e os homens também.
7. O movimento
faz uma confusão entre mal moral e mal situacional. Mal moral é
o pecado, nossa atividade pecaminosa, nossa culpa, nossos erros, nossa
quebra da lei; o mal situacional é a miséria do homem, o
fato dele adoecer, sofrer desastres, acidentes, opressão econômica;
enfim, tudo aquilo que oprime o ser humano. Quando Jesus estava aqui nesse
mundo, Ele agiu de duas maneiras diante do mal: quando Ele encontrava
o mal moral, ele não expulsava. Ele dizia à pessoa: arrependa-se
e me siga; quando Ele encontrou uma prostituta, um Zaqueu, não
expeliu nenhum demônio da ganância de Zaqueu, nem expeliu
nenhum demônio de prostituição; quando se diz lá
que Maria Madalena tinha sete demônios, não quer dizer que
algum deles era de prostituição ou que causava prostituição.
Prostituição, nas Escrituras, sempre em última análise
é responsabilidade do ser humano e é por isso que Deus vem
tratar com o ser humano. De nada valeu a desculpa de Eva e nem a de Adão,
colocando a culpa no Diabo. Deus não Se deixou enganar, eles foram
considerados responsáveis e estavam debaixo da ira de Deus. Quando
Jesus encontra o mal moral, a atitude dele é de repreender, exortar
ao arrependimento e mandar que as pessoas O sigam; Jesus só usa
o modo ekbalístico de ministério quando encontrava pessoas
aprisionadas pelo Diabo em termos de doença, pessoas epilépticas,
pessoas possuídas pelo maligno. Mas quando via um mal moral Ele
nunca expulsava demônios. O problema do movimento de “Batalha
Espiritual” é que eles misturam as duas coisas e dizem que
o ministério de expelir demônios se aplica a todas as circunstâncias.
Isso não pode ser sustentado biblicamente, pois pecado não
se resolve amarrando demônio; pecado não se resolve expulsando
demônio. É verdade que a Bíblia diz que o Diabo nos
tenta, não estamos negando esse fato; isso seria negar o que a
Bíblia diz com clareza. Mas se pecamos, em última análise,
a responsabilidade é nossa, somos nós que pecamos e o Diabo
não vai levar a culpa disso.
Que fazer,
então? - Essas são algumas críticas e preocupações.
Como então a Igreja deve resistir e enfrentar esse problema? Como
deve estar pronta para a batalha? Qual o ensino bíblico sobre o
assunto? Começaremos dizendo que as Escrituras verdadeiramente
afirmam a existência e a realidade das forças espirituais
do mal. No texto que lemos, Efésios 6, Paulo fala sobre essas forças
espirituais numerosas, organizadas e lideradas por Satanás. Elas
são poderosas, perversas, más, astutas, inteligentes e estão
em franca oposição a Deus, a Cristo e à Sua Igreja.
Esse quadro é muito claro nas Escrituras e não podemos negar
e nem mesmo questionar essa realidade. Nós estamos num combate,
e essas forças espirituais estão presentes, continuamente
nos atacando. Mas cremos que o movimento “Batalha Espiritual”
deixa de ensinar o que é mais importante: Essas forças malignas
já estão derrotadas. O modo como o movimento leva seus adeptos
a brigar com o Diabo, a confrontar essas forças malignas, sugere
que Satanás é o senhor do mundo. Assim, o ensino bíblico
da vitória de Cristo tem sido colocado de lado. A Bíblia
nos fala sobre isso usando uma linguagem bastante diferente, usando figura
de campo semântico diferente. O ponto central é que, na cruz,
Cristo ganhou a batalha contra as hostes espirituais do mal, contra Satanás.
Como é que as Escrituras nos descrevem isso? Em Gênesis 3:15,
está dito que viria um descendente da mulher, semente da mulher,
que esmagaria a cabeça da serpente; e a Escritura não deixa
dúvida que isso aconteceu na cruz do calvário. A figura
de “esmagar a cabeça” não poderia ser mais apropriada
ou seja: foi dado um golpe final, não há retorno, foi dado
um golpe mortal. Falando uma vez sobre esse assunto, um gaúcho
chegou a mim e disse: “Pastor, se o senhor quiser enriquecer esse
ponto, o senhor pode acrescentar a minha experiência. Eu sou gaúcho
lá dos pampas e lido com gado e a nossa experiência lá
é que quando a gente esmaga a cabeça da cobra de manhã
ou à tarde, ela vai ficar tremendo, se retorcendo até à
noite. Mas passa o dia todo se mexendo, apesar da cabeça já
ter sido definitivamente esmagada.” Essa figura ilustra bem o ensino
da Escritura de que Cristo já desfechou o golpe final, não
há retorno para Satanás. Em Colossenses 2: 14-15 Paulo diz:
“tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós
e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o
inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as
potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles
na cruz”. Essa linguagem vem do campo militar, essa idéia
de despojar, de expor ao desprezo, triunfar é uma linguagem que
vem das batalhas do mundo antigo. Quando um adversário era vencido
ele sabia que ia ser despojado, o vencedor lhe tirava os bens, as mulheres,
os filhos, o gado e ainda levava as armas do guerreiro vencido; ele era
completamente despojado, ao ponto de algumas traduções modernas,
em vez de dizer “despojando” dizem “desarmando”,
porque esse era o sentido de despojamento. Todas as armas da cidade vencida
eram levadas. A cidade era desarmada para que não houvesse outra
rebelião. Várias traduções modernas dão
preferência a “desarmar”, transmitindo a idéia
de que Cristo desarmou, na cruz, os principados e potestades, expondo-os
publicamente ao desprezo e triunfando deles na cruz. Essa figura é
bastante conhecida - “o triunfo romano”; um general, voltando
vitorioso para sua cidade, entrava em triunfo com os prisioneiros amarrados
atrás dele. E aí as mulheres, as crianças e os velhos
jogavam terra, tomate, nos derrotados. Eles eram expostos ao desprezo.
O apóstolo Paulo deliberadamente está dizendo que, na cruz,
Cristo desarmou os principados e potestades; é a mesma expressão
de “principados e potestades” que aparece em Efésios
6. Desarmou, despojou, tirou tudo em que eles confiavam. O inimigo foi
deixado despido, nu, sem nada e exposto ao desprezo. Na cruz do Calvário
Cristo triunfou deles. A Escritura afirma isso de forma indiscutível.
Em João 12: 31-33 Jesus diz aos discípulos: “Chegou
o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será
expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.
Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer”.
Nessa passagem, o Senhor Jesus Cristo está dizendo que na Sua morte
o príncipe desse mundo seria expulso. Em resumo, Ele está
dizendo a mesma coisa que Paulo, em Colossenses 2:14,15; e que Moisés
escreveu em Gênesis 3:15. As expressões “esmagar a
cabeça”, “desarmar”, e “expulsar o príncipe
desse mundo” referem-se, todas elas, a Satanás. Não
há qualquer referência no Evangelho de João à
expulsão de demônios que Jesus tenha feito. Os relatos de
expulsão de demônios estão apenas nos Evangelhos sinópticos:
Mateus, Marcos e Lucas. Por que João não narra nenhuma expulsão
de demônios? A resposta é a seguinte: João estava
preocupado com a maior de todas as expulsões, a expulsão
central. Na Sua morte, Jesus expulsou definitivamente a Satanás,
o príncipe desse mundo. João, assim, não narra outras
expulsões de demônios.
Voltando a
Efésios 6, considerando as peças da armadura, veremos que
cada uma delas nada mais é do que tudo aquilo que pertence, naturalmente,
ao crente, a qualquer um: “verdade de Deus”, “justiça
de Cristo”, “fé”, “evangelho” e “palavra
de oração”. Não há na passagem nenhuma
arma secreta. Todos os crentes em Cristo Jesus possuem essas armas. Para
muitos, a armadura é o próprio Cristo. Revestir-se da armadura
de Deus é a mesma coisa que revestir de Cristo, em quem estão
todos os tesouros da sabedoria e da ciência. Não há
nada no texto que dê margem às técnicas especiais
de caça ao Diabo ensinadas pelo movimento de “Batalha Espiritual”.
A título
de uma aplicação final, devemos dizer que a Igreja deve
tomar duas linhas: Em primeiro lugar, precisamos estar conscientes de
que estamos envolvidos numa guerra espiritual. Na realidade, conscientes
da atuação dos demônios. As pessoas que estão
lá fora, no mundo, estão debaixo do poder deles e a Igreja
tem que ter consciência disso. Em segundo lugar, mais do que em
qualquer outro momento da sua história, a Igreja deve fincar os
pés na Escritura e fazer da Escritura o seu manual prático.
Aquilo que não puder ser provado pela Escritura, ou deduzido de
uma forma legítima da Escritura, deve ser rejeitado e colocado
fora da nossa vida, da nossa Igreja e da nossa prática de ministério.
A chamada da Igreja, a essa altura, é para a suficiência
da Escritura, e todas as nossas práticas devem passar por esse
crivo. A nossa oração a Deus, o nosso desejo é que
nos Seminários, na Igreja evangélica brasileira, tomemos
uma posição de firmeza sem negar a realidade dessas coisas,
combatendo-as biblicamente, tomando toda a armadura de Deus que nos é
concedida em Cristo. Que Ele nos abençoe!
*O Rev. Augustus
é pastor presbiteriano, tem mestrado em Novo Testamento pela Potschefstroom
University for Christian Higher Education, na África do Sul, e
doutorado em Hermenêutica e Estudos Bíblicos pelo Westminster
Theological Seminary, Filadélfia, USA. Atualmente é coordenador
do Departamento de Novo Testamento do Centro de Pós-Graduação
Andrew A. Jumper, em São Paulo.
(Publicado
em O Presbiteriano Conservador na edição de Setembro/Outubro
de 1996)